Neurocirurgião diz que 80% dos cérebros de irmãs siamesas já estão separados

O neurocirurgião Hélio Rubens Machado afirmou nesta segunda-feira (6) que 80% dos cérebros, veias e artérias das irmãs siamesas unidas pela cabeça já foram separados. As gêmeas seguem internadas na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e se recuperam bem, após a terceira cirurgia a que foram submetidas no Hospital das Clínicas da USP em Ribeirão Preto (SP).

Maria Ysabelle e Maria Ysadora, de 2 anos, devem passar pela quarta cirurgia em 1º de setembro, quando serão implantados quatro expansores subcutâneos para dar elasticidade à pele e garantir que, na separação total de corpos, haja tecido suficiente para cobrir os crânios.

“Elas se comportaram bem e o pós-operatório é imediato agora. Estão recebendo todos os cuidados para cirurgias complexas e neurológicas, e tendo uma evolução absolutamente dentro do esperado. Felizmente, as coisas estão correndo satisfatoriamente”, disse Machado.

O neurocirurgião Ricardo Santos Oliveira afirmou que as meninas têm cérebros independentes, mas com áreas de vascularização interligadas. São esses vasos sanguíneos que foram separados em cada das três primeiras cirurgias realizadas até agora: em 17 de fevereiroem 19 de maio e no último sábado (4).

Oliveira não descartou a possibilidade de que uma delas fique com sequelas. Isso porque, os cérebros das siamesas têm uma anatomia diferente das pessoas comuns. Além disso, o cérebro de Maria Ysadora é menos vascularizado do que o da irmã.

“São riscos calculados, que já foram comentados anteriormente, inclusive com os pais. Existem coisas que vão além da nossa capacidade. Existem equipes do hospital preparadas, não só para os cuidados intensivos, mas para os eventuais cuidados de reabilitação”, afirmou.

Nesse sentido, Machado destaca que a decisão de começar a separar as meninas ainda bebês – a primeira cirurgia, em fevereiro, ocorreu quando elas tinham 1 ano e 7 meses de vida – foi tomada justamente para permitir a regeneração e adaptação cerebral.

“Precisamos operar o mais cedo possível para que o cérebro também se reorganize. O cérebro da criança se forma ao longo do tempo, não está formado completamente ainda. É complexo tratar de crianças? Muito. Mas, é por isso que tem toda essa equipe envolvida”, destacou.

Cerca de 30 profissionais de diferentes áreas, como neurocirgia, cirurgia plástica, pediatria, enfermagem, entre outras, participam das cirurgias de separação das siamesas. A equipe conta com o apoio do cirurgião norte-americano James Goodrich, referência mundial no assunto.

“A vantagem de operar criança é que o cérebro está em desenvolvimento. Então, caso ocorra algum problema, há uma chance desse cérebro, desde que estimulado, recuperar a função. É diferente de um adulto que sofre um acidente vascular cerebral e, muitas vezes, fica sequelado, não tem mais a capacidade de se reorganizar do ponto de vista da plasticidade do cérebro”, completou Oliveira.

Terceira cirurgia

Maria Ysabelle e Maria Ysadora passaram pela terceira cirurgia no último sábado. O procedimento durou oito horas e, segundo Machado, foi o mais complexo até agora. O neurocirurgião disse que as equipes trabalham integradas durante toda a operação.

“Em cada passo da cirurgia, a gente coloca no lugar que foi operado, entre um cérebro e outro, uma membra plástica especial, que não adere, não gruda no cérebro. Na última cirurgia, de separação de corpos, a gente vai retirar tudo e não ter aderência dos cérebros”, explicou.

Após cada cirurgia, as gêmeas também são submetidas a uma série de exames para que a equipe desenvolva um molde das cabeças em 3D, com detalhes dos cérebros, veias e artérias, para que a equipe possa planejar a próxima etapa.

“Servem como guias durante a cirurgia para que a gente saiba exatamente o local para onde prosseguir”, explicou Oliveira. “Essa terceira cirurgia foi, sem dúvida alguma, a mais complexa e a equipe estava esperando e preparada para eventuais dificuldades que pudéssemos encontrar”, completou.

Segundo o neurocirurgião, as operações das gêmeas são demoradas porque demandam um trabalho minucioso da equipe, que vai separando veias e artérias vagarosamente, avaliando a complexidade dos cérebros.

“Os modelos ajudam, mas é na hora da cirurgia, com a discussão em grupo, que podemos tomar decisões que implicam em prosseguir mais, ou interromper aquele passo, naquele momento. Mas, a terceira etapa ocorreu exatamente como planejado no pré-operatório”, disse.

Gêmeas siamesas são acompanhadas no Hospital das Clínicas da USP em Ribeirão Preto (Foto: Diego Farias/Arquivo Pessoal)

Reconstrução

A família das siamesas, que é de Patacas, distrito de Aquiraz (CE), está morando temporariamente em uma casa dentro do campus da USP em Ribeirão Preto, já que não são recomendadas viagens durante o processo de separação.

Em 1º de setembro, as meninas devem ser submetidas à outra cirurgia, dessa vez para implantar quatro expansores subcutâneos nas regiões das têmporas e das nucas. O cirurgião plástico Jayme Farina Júnior explica que o objetivo é fazer a pele dobrar de tamanho.

“São bolsas de silicone que serão introduzidas embaixo da pele e tem uma válvula. O expansor entra vazio, é suturado, fechado lá embaixo. Depois, é injetado soro fisiológico semanalmente. É como se fosse uma bexiguinha que vai enchendo de soro”, detalhou.

Farina Júnior afirmou que o procedimento é indolor: duas vezes por semana, as meninas irão ao Hospital das Clínicas para que o soro seja injetado pelas válvulas que ficarão presas na pele. Caso haja alguma complicação, o líquido é retirado pelo mesmo local.

O cirurgião plástico Pedro Soller destacou que, mesmo com a técnica, o enxerto de pele será necessário nas nucas das crianças. Os médicos também afirmaram que haverá falhas no couro cabeludo após a separação total, mas que poderão ser cobertas pelos cabelos compridos.

“Você ganha em extensão, em área, e isso vai ser fundamental na última cirurgia, na separação definitiva, para cobrir todo o defeito que vai gerar quando as duas estiverem definitivamente separadas. Quando isso ocorrer, vai precisar de mais área de pele para fazer a cobertura definitiva”, afirmou Soller.

Segundo o neurocirugião Ricardo Santos Oliveira, as gêmeas também precisarão receber implante ósseo na etapa final de separação. O médico explicou que os ossos necessários serão retirados da própria calota craniana, que é formada por duas partes.

“A reconstrução óssea vai ser menos complicada do que a do couro cabelo, porque sabemos de antemão que haverá a necessidade de enchertos à distancia, ou seja, pegar retalhos [de pele] de outros locais. Pelos cálculos que foram feitos, não haverá pele suficiente para cobertura total do crânio”, afirmou.

Diretor do Departamento de Atenção à Saúde do Hospital das Clínicas, o médico Antônio Pazin Filho afirmou que o sucesso das cirurgias em Maria Ysabelle e Maria Ysadora coloca a instituição, mais uma vez, como referência em tratamento gratuito de saúde.

“Está caminhando tudo como dentro do previsto e estamos aprendendo muito com essa experiência. Esperamos transpor as técnicas para outros procedimentos realizados dentro do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto”, disse.

Fonte: G1.

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