Aprovação aumenta após prova do Encceja substituir a do Enem para quem busca ‘diploma’ do ensino médio

O percentual de aprovados em exames que dão o direito de tirar o “diploma” do ensino médio mesmo sem frequentar a escola na idade prevista passou de 14,3%, em 2016, para 36% em 2018. O salto ocorreu dois anos depois de o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) ser substituído por uma prova especificamente desenvolvida para esse objetivo: o Encceja (Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos).

O Encceja foi pensado para candidatas como Maria das Neves, que pisou em uma sala de aula pela primeira vez em 2010, aos 45 anos. Ela tentou em quatro edições do Enem obter os 450 pontos que eram necessários para obter o diploma, mas não teve sucesso. Só conseguiu o certificado quando a prova mudou.

Dados analisados pelo G1 na série “Adultos sem diploma” mostram os motivos para as mudanças e seus efeitos:

  • O Enem virou um “vestibular” com questões complexas, enquanto o Encceja tem enunciados mais simples e uma prova mais curta, avaliam especialistas;
  • Se o Enem fosse uma “prova de conclusão do ensino médio”, só 30,2% de todos os candidatos teriam sido aprovados em 2016 com 450 pontos ou mais;
  • Enquanto entre os jovens é alta a taxa de evasão no ensino médio regular, cresce o interesse de adultos que não terminaram a escola. Eles têm duas formas de obter o diploma: uma é cursar o Ensino de Jovens e Adultos (EJA), a outra, a prova do Encceja;
  • A busca pelo Encceja dobrou desde a retomada: foram 102.638 inscritos em 2017, contra 208.391 em 2018;
  • As matrículas em turmas do EJA do ensino médio cresceram 5,1% entre 2014 e 2018. Enquanto isso, as matrículas no ensino médio regular caíram 7,1%

Formas de obter o diploma do ensino médio

Para quem não concluiu o ensino médio no tempo previsto, há duas formas de obter o diploma. A primeira é frequentar o curso de Ensino de Jovens e Adultos (EJA) da rede pública, que tem avaliação presencial dos estudantes concluintes, válida para a emissão do certificado.

Uma comparação entre os resultados dos dois exames mostra, porém, que o Encceja tem tido procura mais alta de inscritos para pegar a certificação, além de mais candidatos que conseguiram a nota necessária em todas as provas.

Enem inadequado para certificação

Roberto Catelli Junior, coordenador adjunto da ONG Ação Educativa, comparou os dois exames durante sua pesquisa de doutorado e diz que a diferença entre eles é a função principal. “O Enem é uma prova de competição para cursos de alta concorrência”, explicou ele ao G1.

Isso exige que a prova tenha, entre outras características, um número grande de itens para poder classificar os milhões de candidatos em uma escala de proficiência. No Enem, são 45 questões, contra 30 do Encceja, por exemplo, que também tem textos de apoio mais curtos.

“Achar que o Enem pode avaliar duas modalidades bastante distintas, o regular e o EJA, é um erro”, afirmou Timothy Ireland, professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e coordenador da Cátedra da Unesco em Educação de Jovens e Adultos.

O próprio Inep, em 2017, considerou a mudança uma melhoria. Em nota, a autarquia do MEC afirmou que o Encceja é um “exame mais adequado”.

Requisitos do Enem

Em sua pesquisa de doutorado pela Universidade de São Paulo, Catelli Junior, da Ação Educativa, analisou os dados dos candidatos do Enem 2013 e descobriu que, mesmo entre os candidatos do ensino regular, 62% dos participantes do exame não cumpririam as exigências impostas desde 2012 para pedir a certificação: 450 pontos nas quatro provas objetivas, e pelo menos 500 pontos na redação.

G1 repetiu a análise com os dados do Enem 2016 e observou que, se o exame fosse obrigatório para todos os 5,8 milhões de participantes daquele ano, 69,8% estariam “reprovados”.

Requisitos do Encceja

Já o Encceja exige que os estudantes acertem 50% das questões objetivas, e 5 de 10 pontos na prova de redação. Além disso, as provas são aplicadas todas no mesmo dia, de manhã e à tarde.

Segundo o professor Giuliano Rossini, coordenador de projetos sociais do Pueri Domus, as habilidades exigidas nas provas não são muito diferentes da matriz de referência do Enem, mas a abordagem das questões é mais adequada porque leva em conta a realidade do estudante jovem e adulto.

Fonte: G1.

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