Rio de Janeiro e São Paulo puxam nova alta de óbitos por Covid-19 no país

Ainda não é possível cravar se o Brasil enfrenta uma segunda onda da Covid-19, dizem especialistas. Os números da doença no país, porém, voltaram a subir de maneira preocupante, e setores que acabaram de reabrir já estão sob ameaça de novo fechamento.

Um levantamento aponta que o Rio de Janeiro foi a cidade que mais registrou mortes por Covid-19 nas duas semanas que antecederam o dia 17 de novembro. Foram 505 mortes no período, contra 404 óbitos ocorridos na capital paulista, que sempre apresentou os piores índices da doença e aparece em segundo lugar. O Rio só fica atrás em número de casos, que voltou a disparar em São Paulo: nos mesmos dias, mais 15.476 pessoas foram infectadas lá, contra 8.045 pacientes cariocas.

O fenômeno tem dominado os debates entre especialistas porque o município do Rio, pelos parâmetros científicos, ainda não teria saído da primeira onda. As análises são, agora, para tentar entender esse novo pico e saber para onde o vírus está nos levando, num cenário de desmonte dos hospitais de campanha e de flexibilização das regras sanitárias. De festas de fim de ano e de volta às aulas presenciais.

Responsável por compilar dados em que compara a situação de casos e mortes nas principais capitais do país, o pesquisador Wesley Cota, da Universidade Federal de Viçosa, destaca que o deslocamento da mancha do coronavírus, que há alguns meses era mais forte nas regiões Norte e Nordeste, não acontece por acaso:

UTIs voltam a lotar

Na cidade do Rio, a taxa de ocupação de leitos de UTIs para pacientes com Covid bate recorde, alcançando 97% das 251 vagas disponíveis, o que pressiona grandes unidades, muito procuradas pela população, como o Hospital Miguel Couto, na Gávea. Em toda a rede SUS no município — que inclui vagas estaduais e federais —, 80% estavam ocupadas ontem. Em 18 de outubro, na Grande São Paulo, 40,5% das UTIs tinham pacientes, mas, ontem, o percentual chegava a 43,1%.

Na rede particular do Rio, a Unimed já informou que a unidade da Barra da Tijuca está com alta demanda de pessoas infectadas. Em São Paulo, o Sírio Libanês tem atualmente 124 pacientes hospitalizados com o vírus, sendo 32 na UTI. O número é maior do que o registrado em abril, pico da doença no hospital, quando 120 estavam internados.

Com Rio e São Paulo puxando de novo os números da doença para cima, fica até difícil separar o que é medo da população e o que é crescimento do contágio. O fato é que a Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica constatou um aumento de 30% do número de exames para detecção da Covid-19 em todo o país nos últimos 15 dias. Também há, no mesmo período, segundo a entidade, aumento de 25% no volume de resultados positivos.

A paisagem de incertezas gera críticas de cientistas que acham que cidades como o Rio se precipitaram ao desmontar o aparato dos hospitais de campanha. Agora, novos pacientes pressionam a rede SUS. A providência imediata, na opinião de Ligia Bahia, especialista em saúde pública da UFRJ, é preparar hospitais e abrir leitos:

— O que está acontecendo é resultado da decisão caótica e absurda de abrir bares, restaurantes e autorizar festas. E, ao mesmo tempo, permitir aglomerações e fechar leitos.

O infectologista Roberto Medronho fala em “repique da primeira onda”:

—Pode ser um alarme falso? Pode, mas não acredito que seja apenas uma flutuação. Na dúvida, não podemos arriscar.

A desmobilização da rede hospitalar como um todo foi um grave erro estratégico, afirma Marcos Junqueira do Lago, do Hospital Universitário Pedro Ernesto, da Uerj.

— Na Europa, fizeram um lockdown rigoroso e frearam a disseminação. Aqui no Brasil, a primeira onda foi muito forte, depois diminuiu, mas não conseguimos interromper a transmissão. A média móvel de mortes mais baixa chega a 300 mortos por dia, o que é um patamar altíssimo. Com esses números, não poderia haver desmobilização dos hospitais de campanha.

‘Um passo atrás’

Quem também defendeu a manutenção dessas unidades de apoio até a disponibilização de uma vacina foi a microbiologista, presidente do Instituto Questão de Ciência e colunista do GLOBO, Natalia Pasternak. Ela ressalta que vamos atravessar mais um período de risco com as férias e as festas de Natal e Ano Novo:

— Nos preocupa a possibilidade de ocorrer aqui uma segunda onda tão forte como na Europa. É preciso usar máscaras, evitar festas e qualquer aglomeração.

Apesar do recrudescimento da doença, Hubert Alqueres, do Conselho Estadual de Educação de São Paulo, não acha que seja o caso de suspender as aulas mais uma vez:

— O problema não está dentro da escola.

Na economia, a preocupação é sobreviver num mercado devastado pela pandemia. De acordo com Percival Maricato, presidente do Conselho da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes em São Paulo, o temor é gigante.

— O desastre continua, e o setor ainda tem que pagar os empréstimos que pegou com bancos — diz.

Para o coordenador do Sistema Infogripe da Fiocruz, Marcelo Gomes, no entanto, é preciso ter coragem de dar um passo atrás se for necessário:

— Assim como o isolamento não era para sempre, a flexibilização também não é. Todo cenário é volátil.

Procurada, a prefeitura de São Paulo afirmou que não há indícios de novo pico da doença e não respondeu sobre um possível endurecimento da quarentena. Já o prefeito Marcelo Crivella anunciou que o hospital de campanha do Riocentro, que fecharia em dezembro, ficará aberto enquanto houver demanda por leitos.

Fonte: O Globo

Foto: NELSON ALMEIDA / AFP